quinta-feira, 3 de março de 2011

Quando tudo pe(r)de um sentido




O ser humano, desde seu primeiro lampejo de inteligência na história de sua evolução, é radicalmente religioso. Deus nasceu como uma espécie de marca identificatória da espécie. Não apenas Deus e tudo o mais que o circunda (ritos, mitos, dogmas, tabus etc), mas fundamentalmente a experiência do temor. Diante da absurda irracionalidade aparente do Universo, os primeiros ancestrais que desceram das árvores e tiveram que viver inteligentemente em busca de alimentos e proteção aprenderam a cultivar o temor como sentimento de autopreservação. A noção de sagrado, de tremendo e de soberano sempre estiveram ligadas às incomensuráveis forças da natureza. Por essa razão, Deus sempre habitou o céu! Donde sempre governou sol, lua, astros, tempestades, ventos etc. A força intrínseca das religiões de todos os cantos foi a de tentar controlar Deus e, por conseguinte, manipular a natureza e sua incrível força. Os ritos são a suprema insistência humana no sentido de tornar o mundo viável e dotado de sentido. No fundo, a religião é a mais profunda busca de significado para as coisas. Um mundo sem sentido não pode ser habitado. Tudo precisa ter seu propósito claro. A relação entre religião e natureza nada mais é que o fruto dessa busca de sentido. O poder extraordinário das forças da natureza só pode, originalmente, ser explicado via discurso religioso que, como tal, além de explicar, pareceu aprender a dominar a própria ordem natural da vida.
Quando um religioso realiza um rito, o que está em jogo não é a sequência de gestos em si, mas a conexão que tal prática tem com aquele mundo que não se consegue alcançar ordinariamente. Por conta disso, a palavra ganhou especial poder no mundo da religião. As palavras aprenderam a se comportar como matrizes de significado; algo que, dependendo da situação experimentada, adquirem esse ou aquele sentido, aquilo que melhor significa aquela experiência. É como se pudesse dizer que não há palavras especialmente mágicas: toda palavra é essencialmente mágica!
Na História das civilizações houve uma experiência que, de certa forma, intuiu transformar pelas raízes tal lógica mágico-religiosa. Por volta do século VI a.C., o pequeno e frágil reino de Yehud, localizado no sul da Palestina, viu sua liberdade ameaçada pelo imenso poder dos Babilônicos. Toda uma cultura estava ameaçada pela ofensiva estrangeira. Terra, palácio, templo, rei, sacerdotes, militares e demais profissionais foram levados cativos para uma terra distante e, para eles, sem qualquer significado que os identificasse. Nessa experiência de Exílio foi que nasceu o que conhecemos por Judaísmo. Embora a história contada na Bíblia remonte a épocas ancestrais, foi a experiência do desterro e do drama da dor causado pela perda das referências que fez com que Judá (Israel) reelaborassem o modo de olhar para a realidade. O registro mágico-religioso já não dava mais conta de significar o mundo. A realidade não mais podia ser compreendida por meio das explicações míticas que são próprias das religiões. Deus que, do alto, governa tudo e que pode, dependendo da situação, ser convencido ritualisticamente a mudar o rumo das coisas. O culto já não opera concretamente mais sobre a vida. A tragédia (o destino) teve que ceder espaço ao drama (a história). Os judeus nasceram por conta de um profundo senso de pertencimento a um mundo cujo rumo não estava entregue aos caprichos de deuses e heróis, mas fundamentalmente ligado às decisões éticas de homens e mulheres que construíam sua própria História.
Essa talvez tenha sido a mais profunda de todas as reformas pelas quais as religiões já passaram. O registro mágico cedeu espaço ao discurso histórico. O rito perdeu lugar perante a ética!
A experiência vivida na região serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, rotulada como a “maior tragédia climática brasileira” revelou bem que a reforma dos judeus de três milênios atrás ainda carece de atualização na experiência religiosa que impera na sociedade contemporânea. O conflito entre tragédia e drama ainda imperam; a confusão entre rito e ética também.
Diante do absurdo vivido com a perda de coisas e pessoas, o discurso religioso veio à tona com uma força surpreendente. Por todo canto, o que mais se ouvia era “graças a Deus”. Gratidão por não ter perdido algo; gratidão por não ter perdido alguém, gratidão por ter perdido algo mas não ter perdido alguém, gratidão por ter perdido algo e alguém, mas estar vivo; e assim, sucessivamente, numa escala de perda e preservação. O curioso é que a razão da gratidão de um se suplantava na experiência do outro que, mesmo tendo perdido muito mais, ainda conseguia expressar tal “graças a Deus”.
Pergunto-me se a palavra de gratidão não se enquadra na ancestral busca pelo sentido, razão pela qual as religiões aprenderam tão bem a manipular as palavras e seus sentidos. O sofrimento absurdo causado por algo tão forte e incontrolável como a força da natureza precisa ser “significado” e, nesse esforço, a religião (independente do seu nome doutrinário específico) mostrou-se o único registro capaz de esboçar tal esforço.
Mas é preciso pensar. Se é verdade, por um lado, que há uma dose de tragédia em toda essa experiência, há, por outro lado, um inexorável tom dramático, histórico e ético. Se é verdade que o temporal de 12 horas consecutivas e com um índice pluviométrico de mais de trezentos milímetros é absurdamente incontrolável e diante do qual somos absolutamente impotentes, é verdade também que temos nossa parcela de responsabilidade em tudo isso.
Construções (ir)regulares em áreas que deveriam ser preservadas, má ocupação dos espaços, falta de planejamento estratégico para exploração do solo, escassez de recursos para situação de emergência, falta de seriedade pública e, acima de tudo, a irresponsável forma de progresso que construímos planetariamente ao longo dos últimos séculos potencializaram a força natural. O que nasceu com a promessa de uma “tragédia” natural (dada sua incontrolável ação) tornou-se um verdadeiro “drama” humano, pago com a vida e a felicidade de tantos irmãos.
E é exatamente por conta de tudo isso que volto de novo meu olhar sobre a religião e sobre as instituições religiosas. O discurso religioso (independente da instituição) renasceu com toda força no intuito de “significar” o drama; de outro ângulo, as instituições religiosas se esforçaram por “controlar” a tragédia. As igrejas mais se ocuparam com o assistencialismo da primeira hora (leia-se distribuição de donativos) do que com a solidariedade que as vítimas realmente careciam.
Tal solidariedade só pode ser realmente vista brotando daqueles homens e mulheres que, independente de seu colorido religioso, arregaçaram as mangas e saíram em busca dos vivos e dos mortos soterrados pela lama ou afligidos pelos mil outros problemas.
Mas o fato é que, indiferente ao pertencimento religioso, uma pergunta não cala desde então: onde estava Deus?
Para uns, Deus controlava tudo e com tudo um propósito tinha. Para outros, Deus punia uns e escolhia uma geração de eleitos para recomeçar. Enfim, o discurso religioso só aprendeu a “significar” as experiências, custe o que custar. Perante o absurdo, mais vale uma “absurda” explicação do que a possibilidade de aceitar o próprio “absurdo”.
O drama de 12 de janeiro ensinou, por trás de tudo, que a verdadeira religião nasce quando se consegue experimentar gratuitamente a solidariedade que nos faz ligados aos outros (re-ligare) e quando nos vemos enxergando e interpretando a realidade que nos cerca com outros olhos (re-ligiere). Mesmo que se tenha que reconhecer o absurdo e o irracional, o que prevalece é a re-arrumação que o mundo de fora provoca no mundo de dentro. O que conta, ao final, é como somos capazes de emergir da lama e da água, qual novo nascimento!
Se isso tudo nos ensinar a ver o que realmente tem valor e nos ajudar a mirar os reais valores da vida, talvez tenhamos sido capazes de fazer com a tragédia o que aprendemos evolutivamente a fazer com a própria natureza, transformá-la em benefício da espécie e torná-la mais palatável.
O desafio é olhar para além das montanhas, para onde o céu repousa sobre a terra, para o horizonte!

FONTE: Ricardo Lengruber Lobosco - docente de Teologia no Instituto Metodista Bennett no Rio de Janeiro e docente de Filosofia na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia em Nova Friburgo

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Morro do Peão








Como já postei aqui antes, volto novamente a colocar aqui, paisagens da região onde eu moro. Por ser uma cidade típica do interior de Minas, as serras e a vegetação do cerrado são predominantes. As caminhadas que faço mostram muitos lugares
diferentes. O percurso que fiz é de 4,80km, porém o trajeto não é plano e nem há estradas, nem mesmo trilhas em alguns lugares, onde tenho que abrir uma picada pelo mato a fora. Mais o final é compensante demais, pois a vista do Morro do Peão é muito gratificante. Estando a 1051m de altura pode-se avistar ao fundo a Serra da Boa Esperança na direção do distrito de Santo Hilário, município de Formiga-MG a 71 km de distância em linha reta. As imagens falam por si!

Conhecimento Melhor



É muito impressionante a mente humana. De certo modo quando alguém está mergulhado na sua convicção, naquilo que acredita, é quase impossível reverter aquele pensamento, às vezes nós mesmos somos assim. O mais complicado é que às vezes aquela convicção é errada, sabemos que aquilo é errado e vemos aquela pessoa agarrada no que acredita ser certo. Podemos fazer e falar o que for pra tentarmos mudar a opinião dela, mais parece ser cada vez mais irredutível, parece afundar cada vez mais nos seus pensamentos.
Tudo isso é difícil, pois se conseguirmos ter uma perspectiva mais ampla das coisas é mais fácil até podermos colocar fé no que cremos, pois assim será mais sólido o pensamento. Daí torna-se possível uma discussão, acredito que em um diálogo, ambas as partes devem estar abertas ao raciocínio de pensar por todos os ângulos.
Mais se colocar dentro da mente que somente aquilo que pensa e age é perfeitamente certo, não haverá nenhuma porta aberta para poder entrar pensamentos diferentes pra que se possa de tal forma conseguir ver por outras formas e ter assim um discernimento melhor de tudo que fazemos em nossas vidas. Um pensamento singular sobre um determinado assunto nunca terá razão. A amplitude sobre o assunto pode levar a melhor informação e por sua vez gerando o conhecimento melhor.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Curso da Vida


Nas sombras da minha mente, está o provérbio perfeito que dita o meu viver.
A volição pelas montanhas sagradas que cortam o tempo é forte como o estrondo do trovão.
Vozes ocultas gritam dentro do grande lago para que eu as possa ver.
Os lobos correm, buscando o que foi perdido, lutando com o coração.

As luzes refletem tudo o que somos em nossa frente
O grande grito soou pela manhã liberando as verdades escondidas
Os poderosos rios de fogo desembocam no grande mar ardente
E os lobos que antes procuravam o que era perdido voltam agora com suas feridas.

Agora a busca pelo incógnito é uma grande corrida fugaz
Tudo que afrontamos parece ser como á água que segue seu curso no rio
E a euforia de lutar parece agora algo tão inútil e ineficaz
Pois tudo que temos é a vida, parece algo simples e sombrio

Todo o poder que agora vemos nas mãos dos grandes reis é inútil
Olhamos pra eles em seus tronos todos inertes e apodrecidos
Vendo que a realidade da vida é tão pueril e também fútil
Que o tempo prova tudo e o que vale mesmo são os anos bem vividos

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Novo ano e a mesma coisa!



Parece que eu vivo em um mundo difirente de tudo o que é ditado pela mídia consumista. O ano começa e novamente vem aquela onda de lixo na TV, novelas, futebol! Cultura zero!
Nesse país se você diz que não gosta de futebol, parece que você não é patriota! Simplesmente assim. A televisão aberta é tão pobre de cultura, não oferece absolutamente nada que possa acrescentar na vida das pessoas. As novelas que se dizem prestar um "grande favor" a sociedade mostrando casos de alcóolicos, drogados dentre outros problemas socias, nunca focam realmente o problema e sim apenas sua audiência. Uma grande hipocresia, para gerar lucros e ter o poder na mão. Lembre-se: NUNCA ACREDITE NA MÍDIA. Ela é uma máquina de manipulação em massa, tenha discernimento e sua própria opinião, pois ela dita o que você deve comer, vestir e até como deve ser! Nesse país é assim mesmo, onde jogadores de futebol são verdeiros deuses não se pode esperar muito. É um verdadeiro fanatismo estúpido, onde o esporte fica distante da verdadeira idéia de apenas ser uma distração e se transformou em uma máquina de gerar dinheiro.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

BUSHIDO

Não tenho pais, faço do Céu e da Terra meus pais ;
Não tenho lar, faço do saika tanden meu lar;
Não tenho poder divino, faço da honestidade meu poder ;
Não tenho meios, faço da docilidade meus meios ;
Não tenho poder mágico, faço da personalidade minha magia ;
Não tenho vida nem morte, faço do eterno minha vida e minha morte ;
Não tenho corpo, faço da força meu corpo ;
Não tenho olhos, faço do relâmpago meus olhos ;
Não tenho ouvidos, faço da sensibilidade meus ouvidos ;
Não tenho membros, faço da prontidão meus membros ;
Não tenho leis, faço da auto-proteção minha lei ;
Não tenho estratégias, faço da liberdade de matar e ressuscitar minha estratégia ;
Não tenho forma, faço da astúcia minha forma ;
Não tenho milagres, faço da justiça meus milagres;
Não tenho princípios, faço da adaptabilidade meu princípio ;
Não tenho táticas, faço da rapidez minha tática ;
Não tenho amigos, faço da minha mente meu amigo ;
Não tenho inimigos, faço da imprudência meu inimigo ;
Não tenho armadura, faço da benevolência e da retidão minha armadura ;
Não tenho castelo, faço da mente inamovível meu castelo ;
Não tenho espada, faço do sonho de minha mente minha espada.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

DE NOVO, NATAL

Como sempre, todos os anos falo da hipocresia natalina, que sempre deixa de lado a verdadeira face desta data, resolvi colocar um link para o site de uma amiga blogueira (Faby Crestfallen - Solidão, niilismo, auto-suficiência..., além de ser um texto refinado e culto, nos mostra tudo como realmente é. Reflitam sobre o excelente blog e a visão exata da realidade. Bom e como ano passado novamente eu coloco minha mensagem natalina interpretada pelos Garotos Podres.